Quando olhamos para a Igreja hoje, encontramos padres nas paróquias, monges nos mosteiros, religiosas nas escolas e hospitais, missionários atravessando fronteiras, contemplativas dedicadas à oração, irmãos religiosos, membros de institutos seculares e muitas outras formas de consagração.
Essa diversidade foi sendo construída ao longo de dois mil anos. Em cada época, homens e mulheres procuraram responder ao chamado de Deus a partir das necessidades que encontravam diante de si. Assim nasceram ministérios, comunidades, ordens, congregações e carismas que continuam presentes na Igreja.
Jesus nasceu e viveu dentro do povo judeu. Os Apóstolos conheciam as Escrituras de Israel, frequentavam o Templo e as sinagogas e estavam inseridos numa tradição religiosa que já possuía sacerdotes, mestres e diferentes formas de serviço religioso.
A experiência com Jesus, sua morte e ressurreição e, depois, Pentecostes deram origem à comunidade cristã. Os Atos dos Apóstolos descrevem os primeiros cristãos reunidos para ouvir o ensinamento dos Apóstolos, viver a comunhão, partir o pão e rezar (cf. At 2,42).
O Concílio Vaticano II situa esse nascimento dentro da própria história de Israel. A Igreja foi “admiravelmente preparada na história do povo de Israel e na Antiga Aliança” e manifestada pela efusão do Espírito Santo (Lumen Gentium, 2).
À medida que o Evangelho se espalhou e novas comunidades foram surgindo, os serviços dentro da Igreja também se organizaram. Consolidaram-se os ministérios que conhecemos até hoje: “O ministério eclesiástico, instituído por Deus, é exercido em ordens diversas por aqueles que desde a antiguidade são chamados Bispos, presbíteros e diáconos.” (Lumen Gentium, 28)
Os bispos sucedem aos Apóstolos na missão de pastorear a Igreja. Os presbíteros – os padres – tornam-se seus colaboradores na pregação do Evangelho, na celebração dos sacramentos e no cuidado das comunidades. Os diáconos recebem uma missão própria de serviço na liturgia, na Palavra e na caridade.
Desde os primeiros séculos, encontramos cristãos que desejavam consagrar toda a existência a Deus. Entre eles estavam mulheres que escolheram a virgindade consagrada, viúvas dedicadas à comunidade, ascetas e, mais tarde, homens e mulheres que buscaram a solidão para dedicar-se à oração.
Nos séculos III e IV, essa experiência cresceu especialmente nos desertos do Egito e do Oriente. Surgiram os Padres e as Madres do Deserto. Alguns viviam como eremitas; outros começaram a formar comunidades.
Nascia a tradição monástica.
Santo Antão, São Pacômio e São Basílio tornaram-se grandes referências no Oriente. No Ocidente, São Bento deixou uma Regra que influenciaria profundamente a vida monástica europeia.
O Concílio Vaticano II reafirma essa história: “Logo desde os princípios da Igreja, houve homens e mulheres, que pela prática dos conselhos evangélicos procuraram seguir Cristo com maior liberdade e imitá-lo mais de perto, consagrando, cada um a seu modo, a própria vida a Deus.” (Perfectae Caritatis, 1) Essa frase ajuda a compreender algo que permanece até hoje: a vida consagrada nasceu com rostos masculinos e femininos. As mulheres tiveram participação decisiva nessa história.
A presença feminina atravessa praticamente toda a história da vida consagrada. Desde os primeiros séculos, encontramos virgens consagradas e importantes figuras femininas da vida ascética, posteriormente conhecidas como Madres do Deserto, entre elas Santa Sinclética de Alexandria, Amma Sara e Amma Teodora. Assim como os Padres do Deserto, essas mulheres fizeram da oração, da austeridade e da busca de Deus o centro de suas vidas.
Nos séculos seguintes, essa presença ganhou novas expressões. Santa Escolástica está ligada à tradição beneditina; Santa Clara, à espiritualidade franciscana; e Santa Teresa de Jesus marcou profundamente a tradição carmelita.
Mais tarde, muitas mulheres fundaram congregações dedicadas à educação, à saúde, às missões e ao cuidado das pessoas mais vulneráveis. Outras abraçaram a vida contemplativa e fizeram da oração e da vida comunitária a sua forma de servir à Igreja.
São João Paulo II reconhece essa presença histórica na Vita Consecrata: “Ao longo dos séculos, nunca faltaram homens e mulheres que […] escolheram este caminho de especial seguimento de Cristo.” (Vita Consecrata, 1) Por isso, quando falamos de vocações na Igreja, a vida consagrada feminina ocupa um lugar muito próprio. Religiosas e consagradas ajudaram a levar a presença da Igreja a lugares onde muitas vezes não havia outras estruturas: escolas, hospitais, missões, obras sociais e comunidades distantes. E continuam fazendo isso hoje.
A vida consagrada foi assumindo novas formas conforme a história avançava.
Na Idade Média, franciscanos e dominicanos levaram a vida religiosa para uma presença mais direta nas cidades, na pregação e no ensino. Mais tarde surgiram novas ordens e congregações voltadas para as missões, a educação, os doentes, os pobres e tantas outras necessidades.
É aqui que encontramos outra palavra muito presente neste Guia: carisma.
O Espírito Santo concede diferentes dons para a edificação da Igreja. Alguns desses dons deram origem a famílias religiosas inteiras. São Francisco de Assis, São Domingos, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa de Jesus, São Vicente de Paulo, São João Bosco e tantos outros perceberam uma maneira própria de viver o Evangelho que depois foi partilhada por outras pessoas.
O Concílio Vaticano II chama o resultado desse processo histórico de “uma variedade admirável de famílias religiosas” (Perfectae Caritatis, 1). É justamente essa variedade que explica por que encontramos congregações dedicadas à educação e outras às missões; algumas aos enfermos, outras aos jovens; comunidades contemplativas e institutos profundamente envolvidos na ação pastoral e social.
Cada carisma coloca um aspecto do Evangelho em evidência e o transforma em modo de vida e serviço.
Essa história também explica uma diferença que às vezes causa dúvida.
O padre diocesano pertence a uma diocese e exerce seu ministério em comunhão com o bispo. Muitos estão à frente de paróquias, embora possam assumir outros serviços pastorais.
O padre religioso também recebeu o sacramento da Ordem, mas pertence a uma ordem ou congregação e vive o carisma daquela família religiosa. É o caso de franciscanos, dominicanos, jesuítas, salesianos, redentoristas e tantos outros.
O próprio Concílio fala dessas duas formas ao afirmar que “todos os sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos […] segundo a própria vocação e graça, contribuem para o bem de toda a Igreja” (Lumen Gentium, 28).
Também existem homens consagrados que são irmãos religiosos e não são padres. Sua vocação é a própria consagração religiosa e a participação na missão de seu instituto.
Hoje a Igreja reconhece diferentes expressões de vida consagrada: a vida religiosa nas ordens e congregações, a vida monástica, a vida eremítica, a Ordem das Virgens e os institutos seculares. Existem também as sociedades de vida apostólica, com características próprias.
São João Paulo II escreveu que a vida consagrada está “no coração da Igreja” e continua sendo um dom necessário para sua vida, santidade e missão (Vita Consecrata, 3).
Talvez essa seja a melhor maneira de compreender a diversidade apresentada neste Guia.
Por trás de cada instituto existe uma história. Por trás de cada carisma existe uma forma de servir. E por trás de todas essas histórias existem pessoas que um dia perceberam que poderiam entregar a própria vida a Deus.
Algumas foram para o deserto. Outras construíram escolas. Algumas atravessaram oceanos como missionárias. Outras permaneceram a vida inteira dentro de um mosteiro. Há quem tenha cuidado de doentes, formado jovens, acompanhado comunidades ou anunciado o Evangelho em lugares onde a Igreja ainda começava a chegar.
As formas mudaram ao longo dos séculos porque também mudaram as necessidades das pessoas. O chamado de Cristo continua o mesmo:
“Vem e segue-me” (Mt 19,21).
E é desse chamado, acolhido de tantas maneiras ao longo da história, que nasceu a grande diversidade de vocações que você encontrará nas próximas páginas.